Crédito da imagem: Capa Marília A Cara do Espelho em foto de reprodução.

'A cara do espelho' reflete inacabado disco de 2015 em que Marília dá voz a Ary e Jobim

Mauro Ferreira

Não surpreende que os 75 anos que Marília Marzullo Pêra (22 de janeiro de 1943 – 5 de dezembro de 2015) poderia estar festejando hoje, se não tivesse saído de cena há pouco mais de dois anos, estejam sendo postumamente comemorados com o lançamento do single A cara do espelho nas plataformas digitais. Marília Pêra foi atriz tão grande e versátil que desempenhou com talento e musicalidade a personagem de cantora de música popular, tendo gravado discos, estrelado musicais e encarnado várias estrelas do Brasil no espetáculo Elas por ela (1989).

Bolero composto por Guto Graça Mello em parceria com Nelson Motta para a trilha sonora da peça musical Feiticeira (1975), A cara do espelho foi originalmente gravado por Marília no álbum de 1975 com as músicas do roteiro desse fracassado espetáculo. O bolero, aliás, é a composição mais inspirada da trilha reeditada em CD em 2011 pela gravadora Joia Moderna. Mas é inédito o registro do single digital disponibilizado hoje em edição da gravadora Biscoito Fino. Trata-se de prévia de álbum deixado inacabado pela artista. Entre versos em português e em espanhol, a atriz esboça balanço existencial ao dar voz ao bolero regravado por Nana Caymmi há 20 anos para o álbum Resposta ao tempo (1998). O arranjo sugere clima de samba-canção até cair na cadência típica do bolero.

Em setembro de 2015, Marília Pêra entrou no estúdio da Biscoito Fino, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), para dar continuidade à discografia iniciada na década de 1970 com o registro de músicas para trilhas sonoras de novelas da TV Globo. Mesmo já debilitada pelo câncer que calaria a voz da atriz-cantora dali a três meses, a intérprete iniciou a gravação de 12 músicas com produção de José Milton. A artista teve tempo de pôr somente as vozes-guia, e não as vozes definitivas, em seis dessas músicas, incluindo composições (de títulos ainda não revelados) de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e Ary Barroso (1903 – 1964).

A pós-produção das gravações (feita com a adesão vocal de familiares e amigos da artista) gerou o álbum que tem previsão de lançamento para o segundo semestre deste ano de 2018 e que será antecedido por edições paulatinas de singles como Duas contas (Garoto, 1955) e Lua e flor (Oswaldo Montenegro, 1984). O repertório originalmente selecionado para o álbum inclui músicas de compositores como Dolores Duran (1930 – 1959) e Jacques Brel (1929 – 1978), cuja canção Ne me quitte pas (1959) chegou a ser gravada por Marília em versão em português escrita por Fausto Nilo e intitulada Não me deixes mais.

G1
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