Simone veste muito bem a 'nova roupa colorida' de Ana Frango Elétrico no frescor do show 'Que mulher é essa?'

Simone apresenta na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro (RJ), o show 'Que mulher é essa?', sob direção musical de Ana Frango Elétrico Rodrigo Goffredo ♫ CRÍ...

Simone veste muito bem a 'nova roupa colorida' de Ana Frango Elétrico no frescor do show 'Que mulher é essa?'
Simone veste muito bem a 'nova roupa colorida' de Ana Frango Elétrico no frescor do show 'Que mulher é essa?' (Foto: Reprodução)

Simone apresenta na casa Vivo Rio, no Rio de Janeiro (RJ), o show 'Que mulher é essa?', sob direção musical de Ana Frango Elétrico Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Que mulher é essa? Artista: Simone Data e local: 7 de agosto de 2026 no Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ Show que marca o encontro de Simone com Ana Frango Elétrico, “Que mulher é essa?” cumpre a expectativa de ser um sopro de renovação na trajetória da cantora, em cena desde 1973 com um timbre singular e com grande força cênica. Desde que se libertou das fórmulas do mercado fonográfico que a aprisionaram nos anos 1980 e 1990, Simone vem tendo rasgos de ousadia na carreira em movimentos de renovação iniciados há 25 anos com o álbum “Seda pura” (2001). Alguns desses impulsos se revelaram efêmeros. Outros tiveram mais fôlego. Mas nenhum resultou com o real frescor e potencial evidenciados em “Que mulher é essa?”, o melhor show solo de Simone no século XXI, a julgar pela apresentação da noite de ontem, 7 de agosto, na estreia carioca da turnê em apresentação que lotou a casa Vivo Rio (os encontros da cantora com Ivan Lins em 2018 e com Francis Hime, em maio deste ano, também resultaram em shows antológicos). A centelha de novidade reside na direção musical de Ana Frango Elétrico, artista que vem sobressaindo na cena alternativa desde 2019, sobretudo como arranjadora. A timbragem sui generis de Ana é a faísca que acende Simone neste show dirigido por Ronaldo Fraga, estilista – criador do elegante figurino da cantora – que teve a humildade e a sabedoria de se tornar imperceptível como diretor, deixando Simone ser ela própria no palco, emoldurada pela bela cenografia e luz criadas por Mari Pitta. Simone é a idealizadora do show dirigido pelo estilista Ronaldo Fraga, criador do figurino da cantora Rodrigo Goffredo Ao viço dos arranjos, soma-se a construção de um roteiro – assinado por Simone com Fraga e com Ana Frango Elétrico – que contribui para soprar em cena os ventos da renovação. Também elaborado com frescor, esse roteiro harmoniza as novidades com alguns emblemas do repertório de Simone – “Face a face” (Sueli Costa e Cacaso, 1977), “Jura secreta” (Sueli Costa e Abel Silva, 1977) e “Yolanda” (Pablo Milanés, 1970), apaixonada canção entoada por Simone com a letra original em espanhol – e essas músicas são necessárias para estabelecer a conexão entre a cantora e um público fiel e nem sempre aberto às mudanças. Como o título “Que mulher é essa?” já sinaliza, o show tem como mote a abordagem de questões femininas que, a rigor, sempre foram recorrentes no repertório de Simone, intérprete de músicas como “Mulher, e daí?” (1980) – composição em que Gonzaguinha (1945 – 1991) deu drible nas expectativas machistas em letra escrita sob ótica feminina – e dona de um álbum chamado “Desejo” (1984) e um disco ao vivo intitulado “Feminino” (2002). O traço de novidade está na forma como essas questões são reorganizadas no roteiro sob a ótica de uma mulher de 76 anos que exprime a força de estar viva, plena, com voz ativa. Sob esse prisma, é emblemático que o roteiro abra com um rock de Roberto Carlos e Erasmo Carlos (1941 – 2022), “Se você pensa” (1968), que, na voz de uma mulher, adquire outro sentido. É a mulher que está no comando, cheia de vida e vontades. “Muito que andar por aí / Muito que viver por aí / Muito que aprender / Muito que aprontar por aí”, alerta Simone nos versos de “Petúnia resedá” (Gonzaguinha, 1978), música turbinada com a mesma energia roqueira do rock que abre o roteiro. A eletricidade da banda – formada por Chico Lira (teclados), Filipe Coimbra (guitarra), Giordano Bruno (baixo) e Vitor Cabral (bateria) – garante a vibe jovial dos arranjos. Simone canta músicas de Dona Onete, Erasmo Carlos (1941 – 2022), Gonzaguinha (1945 – 1991) e Rita Lee (1947 - 2023) no show 'Que mulher é essa?' Rodrigo Goffredo Sob esse aspecto, é sintomática a inclusão no roteiro do rock, “Velha roupa colorida” (1976), em que Belchior (1946 – 2017) sentenciou há 50 anos que o novo sempre vem. E às vezes o novo vem na forma do antigo, como “Morena”, o samba-canção de Dalto que abriu em 1973 o primeiro álbum de Simone – então ainda em formação como cantora, com a voz ainda dura – e que volta repaginado no roteiro do show “Que mulher é essa?”. Se a morena de 1973 é impedida de lançar pelas ruas o olhar de paixão por conta da chuva, metáfora para denunciar a repressão da sociedade machista e ditatorial da época, a mulher desinibida do bolero “Sob medida” (Chico Buarque, 1979) já dá as cartas no jogo do amor e vivencia desejo cotidiano que também irrompe nos versos sensuais de “Quando eu te conheci” (2013), carimbó chamegado de Dona Onete lançado pela cantora Lia Sophia, propagado na voz da própria Onete em gravação do álbum “Banzeiro” (2016) e ora revivido por Simone em um dos números mais vivazes do show “Que mulher é essa?”. É a mulher que dá a decisão nesse roteiro feminino em que Simone, em outro movimento surpreendente, traz à tona a canção “Migalhas”, composição do gigante gentil Erasmo Carlos apresentada por Simone no álbum “Na veia” (2009). Mas talvez nada surpreenda ou enterneça mais no show do que a abordagem íntima de “Baby” (Caetano Veloso, 1968) feita por Simone somente com a voz e o violão da artista. Nem é preciso ler na camisa da Cigarra que esse canto delicado é dedicado a Gal Costa (1945 – 2022), amor do passado que ressoa na forma de uma saudade do Brasil. Simone aborda questões femininas, sob ótica contemporânea, na grande maioria das 22 músicas do roteiro do show 'Que mulher é essa? Rodrigo Goffredo Após o canto de “Baby”, a abordagem de música de Ana Frango Elétrico e Ava Rocha – “Mulher bicho homem” (2020), gravada por Ana há seis anos com ecos do pop feito pelo casal Rita Lee (1947 – 2023) e Roberto de Carvalho na era 1979 / 1983 – devolve ao show a energia roqueira do início, temperatura mantida na sequência por “Fullgás” (Marina Lima e Antonio Cicero, 1984), música que entrou no roteiro na estreia carioca, substituindo “Grávida” (1991), parceria de Marina Lima cantada por Simone na estreia nacional do show em São Paulo (SP) no sábado passado, 1º de agosto. A vitalidade com que Simone cantou dois sucessos do casal Rita Lee & Roberto de Carvalho – “Cor de rosa choque” (1979) e “Bem me quer” (1980), encadeados em medley enérgico encerrado no toque heavy da guitarra de Filipe Coimbra – sublinhou a superioridade do show “Que mulher é essa?” em relação aos (ótimos) espetáculos recentes de Simone. É uma diferença sutil, mas determinante. É que inexiste um clima de barzão nesse show em que Simone também celebra a memória de Lô Borges (1952 – 2025), cantando “Tudo que você podia ser” (1972), parceria de Lô com Márcio Borges gravada por Simone nos primórdios. Até “Maria Maria” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976) faz todo o sentido no roteiro, já no bis, com Simone elencando os nomes de grandes mulheres do Brasil. Por isso mesmo, também faz sentido a inclusão de “Quando eu estiver cantando” (João Rebouças e Cazuza, 1989) no arremate do roteiro, antes do bis. Quando Simone estiver cantando e se redimindo com o canto, e se mantendo viva em cena, fique em silêncio. E aplauda forte no fim porque o show “Que mulher é essa?” é apenas o jeito de Simone viver como mulher o que é amar em 2026 e, nesse cenário, é justo ressaltar que a cantora vestiu muito bem a nova roupa colorida de Ana Frango Elétrico nessa cena cheia de frescor. Simone mostra vitalidade no show ''Que mulher é essa?' e, no fim, insere no figurino de Ronaldo Fraga um adereço que alude ao apelido de 'Cigarra' Rodrigo Goffredo