Maria Bethânia e as palavras cantadas e dramatizadas que deram um norte à vida de Elias Andreato
21/04/2019 18:44 em Arte e Literatura

Mauro Ferreira

"Elias, vem ouvir aquela moça da Bahia que você tanto gosta". Foram muitas as vezes que Elias Andreato ouviu da boca da mãe, na segunda metade dos anos 1960, uma frase como essa.

A moça da Bahia era Maria Bethânia, cantora que despontara para o estrelato, aos 19 anos, ao substituir Nara Leão (1942 – 1989) no espetáculo carioca Opinião (1964 / 1965) a partir de 13 de fevereiro de 1965.

Alzira Andreato chamava o filho porque já tinha ciência do fascínio exercido pela voz de Bethânia no adolescente nascido em março de 1955 na interiorana cidade paranaense de Rolândia (PR).

Esse fascínio, que deu norte à vida de Elias e o motivou a iniciar carreira no teatro, perpassa todas as 176 páginas da biografia do ator e diretor, Elias Andreato – A máscara do improvável (Editora HUMANAletra), primorosamente escrita pelo jornalista gaúcho Dirceu Alves Jr. e lançada neste mês de abril de 2019.

Tanto que o primeiro capítulo do livro, Amanheceu o espetáculo, descreve em minúcias a sensação de arrebatamento e descobrimento de si mesmo tida por Elias ao assistir ao espetáculo Rosa dos ventos – O show encantado, de Bethânia, no Teatro Maria Della Costa, na cidade de São Paulo (SP), para onde ele migrara com a família, trazendo na bagagem somente a incerteza do futuro desconhecido.

Era a primeira vez que Elias entrava em um teatro, a convite de amiga que pagou o ingresso. Era a primeira vez que Elias via Bethânia, até então somente uma voz também improvável que chegava ao jovem, já vitoriosa, pelas ondas do rádio, já que a cantora, avessa aos festivais, nunca teve a imagem exaustivamente difundida pela televisão como os colegas da primeira geração da MPB.

 

E ele, Elias, a viu nessa primeira vez em show que fez história na vida da própria intérprete baiana desde que estreou em julho de 1971 na cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Ao se deparar com a dramaticidade de Bethânia em Rosa dos ventos, show em que a cantora moldou a personalidade teatral sob a batuta do diretor Fauzi Arap (1938 – 2013), Elias teve despertada a vocação para o palco, dando os primeiros passos numa vida que se transformou numa obra de arte, como sintetiza com maestria a jornalista Marília Gabriela no prefácio do livro.

Uma vida que deu tantas voltas a ponto de, como relata Dirceu Alves Jr., Elias ter recebido em 2009 um improvável convite da própria Maria Bethânia para dirigir a intérprete no recital Bethânia e as palavras, espetáculo em que, invertendo a ordem habitual dos shows da cantora, a música entrava somente para alinhavar a fina costura da poesia e dos textos em prosa, motes do recital.

O convite foi feito após a cantora assistir a uma apresentação do monólogo Doido (2009), escrito e protagonizado por Elias na cidade de São Paulo (SP). Com misto de incredulidade e insegurança, o artista aceitou o convite para dirigir Bethânia, com quem construiu, a partir dos ensaios, uma relação de intimidade respeitosa e por vezes distante. A ponto de não haver uma foto oficial do diretor com a cantora que o conduzira aos palcos numa noite já distante de 1972.

De lá para cá, a moça da Bahia se transformara na senhora da cena do Brasil, referência sempre tão presente na vida do ator que, certa vez, o próprio Fauzi Arap, condutor do barco de Bethânia nos mares cênicos, sugeriu a Elias que ele se portasse no palco menos como Bethânia e mais como Dercy Gonçalves (1907 – 2008).

O conselho foi acatado com humildade e sabedoria pelo ator ainda que, no íntimo, Elias Andreato soubesse que nunca iria realmente se desvincular da influência decisiva da moça da Bahia na vida e obra daquele jovem encantado em 1972 que faria muita arte, anulando probabilidades.

 

Portal G1

 

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